sob a redoma

  1. No mesmo ano que cometeria suicídio Sylvia Plath publicou seu único romance, A redoma de vidroassinado com o pseudônimo Victoria Lucas. Não queria magoar qualquer um que pudesse se reconhecer entre os personagens do livro – e faz sentido; só sairia nos Estados Unidos assinado com Sylvia Plath anos mais tarde, quando seu ex-marido, Ted Hughes, herdeiro do espólio, fez um acerto irrecusável com a sra. Plath, a quem o livro magoou principalmente.
  2. “O romance é um libelo contra os anos 50 nos Estados Unidos. É uma crônica sobre o colapso, a tentativa de suicídio e a “recuperação” de sua heroína, Esther Greenwood, e é narrada por uma voz que tem todo o desdém da voz de Ariel (…) O livro tem uma puerilidade superficial, uma facilidade enganosa: pode ser lido como um livro para moças. Mas é um livro para moças escrito por uma mulher que foi e voltou do inferno, disposta a vingar-se de seus torturadores. É um livro para moças repleto de veneno, vômito, sangue e muitos volts de eletricidade (a eletrocussão dos Rosenberg e os terríveis tratamentos de choque de Esther aparecem ironicamente associados), e povoado por homens asquerosos e mulheres mais velhas francamente patéticas.”, explica o enredo, como eu não seria capaz, a ensaísta Janet Malcolm.
  3. Um livro nunca está à parte do mundo. Podemos isolá-lo em um ambiente estéril, analisá-lo como quem tenta entender os seres minúsculos do mundo fora do mundo, ali, sob a objetiva de um microscópio. Mas eis que atrás da lente tem um olho com memória.
  4. Já não podemos ler esse livro sem saber que sua autora de fato foi uma mulher tão enormemente infeliz que um dia, depois de trancar as crianças no quarto do apartamento em que moravam em Londres, com uns biscoitos e um copo de leite ao lado da cama, ela enfiou a cabeça no forno intoxicando-se com o gás. Ela não se enforcou, nem deu um tiro na cabeça, não procurou um prédio mais alto que o seu para pular. Escolheu ficar ali mesmo, na cozinha, em silêncio, e morrer devagar.
  5. Ainda que a gente se irrite um pouco com a maneira desdenhosa como Esther narra esse seu tempo de crise, ainda que a gente de fato fique muito irritada com Esther e seu egoísmo suicida e depressivo, e deseje mesmo que ela bata com a cabeça naquela árvore do fim da pista de esqui, ainda assim há de se reconhecer a verdade da tristeza nuns detalhes até pouco importantes, como a vontade de ficar deitada, aquele dia todo, sob o colchão do seu quarto de infância.
  6. Um livro nunca está à parte da vida. E quando a vida está, por muitos motivos, disposta a se abrir ao livro, é ela mesma que ela encontra, é nela mesma (a memória, o trauma, o medo e o desejo) que as palavras, já vivas atrás dos olhos, se enrosca. Um nó cego com que se bordará o futuro (lido, vivido).
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