resoluções

Que eu perca essa vontade de ter outra vida

Até os poetas mais livres pegam a fila do banco

E há para todos mais tempo ocupado em continuar vivo

Que as horas dedicadas às coisas bonitas

Que eu diga a cada segundo monótono: isso é vida ainda

Há que se maldizer o metrô lotado de segunda-feira

E acelerar os segundos de um dia de merda

Que eu estabeleça o limite do amor e do desejo do tamanho do homem

E não da literatura

E perdoe os que me deram motivos para a desistência e a morte

Que eu cumpra uma meta de dez mil passos diários

Ainda que entre as linhas dos livros esquecidos, pelos brancos dos parágrafos

Que eu me perca

No encantamento labiríntico dos dias sem aventura

Haja mistério no meio-dia de quinta, a fila do pão, o semáforo que regula

Que eu perceba o gosto da chuva sob os sapatos úmidos

E um verso escondido nos anúncios de telefonia

Que eu não queira de novo outra vida

Mas viva essa, a minha

Simples, quieta, burocrática vida.

A primeira coisa escrita sobre um ser que nasce é um formulário do governo

A última coisa escrita sobre um ser que morre é um formulário do governo

Entre eles há certidões, boletos, livros-caixa e uma ou outra carta de amor

E espaços em silêncio

Em que se pode escrever

Se quiser

Um poema de ano novo.

31 de dezembro de 2014.

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