futuro do pretérito

Me dei conta na noite passada que se não fosse tão ligada à natureza humana isso de pensar na possibilidade daquilo que não houve de fato (imaginar, portanto), não teríamos  uma estrutura para expressar esse sentimento, isto é, o futuro do pretérito. Se não fosse da natureza humana se arrepender, se não fosse da natureza humana criar uma história a partir do possível inexistente, se não fosse na natureza humana viver segundos minutos décadas numa realidade falsa porém possível em que se caminha com falsos pés pelas paisagens que não existiram mas, se não fosse da natureza humana o remorso, se não fosse da natureza humana a obrigação de escolher, o tempo todo escolher cada passo, se não fosse da natureza humana uma consciência amarga, precoce ou tardia, daquilo que não se viveu mas se poderia, se não fosse da natureza humana desistir, não seria possível uma estrutura tão ilúcida como essa que organiza um discurso delirante e premonitório de um futuro que se perde em qualquer canto no caminho entre o passado e não chega a ser presente.  É o tempo da melancolia. É um tempo beckettiano. Da literatura.

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