o impossível

O impossivel lll (1946), Maria Martins.

As teorias da recepção sempre me fascinaram. Tentar explicar de que maneira acontece essa alucinação prazerosa que decorre de um amontado mais ou menos prodigioso das palavras de todo dia: enquanto se lê o mundo desaparece um pouco a não ser aquela parte do mundo que já desfeito em memória (ou refeito) se enrosca nas palavras encantatórias que se aproximam dela. O que leio sou eu (o milagre que acontece em qualquer canto entre as letras presas no papel e os canais dos olhos). Da mesma natureza, essas palavras engrossam a memória, aumentam a experiência. É viver um pouco mais, caminhar para dentro. Acho bem bonito. Todo texto é um pouco bruxaria. E como leitora, principalmente, tenho certo orgulho em me sentir tão participante desse jogo invisível.

No entanto, é uma verdade teórica, abstrata. O que tenho sentido, cada vez mais e com o corpo inteiro (esse ser concreto que abstrai), é a impossibilidade dessa conversa. É o vazio. É como se os deuses que capacitam os encantamentos tivessem surdos. Como se estivessem mortos. Ou indiferentes, apenas, como todos estamos.

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