Um conto

Um conto falando daquela mulher de trinta e nove anos que ainda se lembra do cara com quem ela saiu uma vez aos dezoito e assiste escondida a uns vídeos pornográficos no computador do trabalho porque procura de alguma maneira se preencher de vazio.

O conto do dia em que quebrei cinco dentes.

Um conto que descrevesse objetivamente uma a uma as cenas de sexo de um vídeo pornográfico qualquer como aquele ensaio do Dyer sobre Stalker para conseguir o vazio das cenas de sexo daqueles vídeos pornográficos quaisquer a que a mulher de trinta e nove anos assistia pensando no cara com quem ela ficou aos dezoito.

O conto da tragédia discreta. Da amputação que não chocou ninguém.

Um conto descrevendo cada fantasia sexual impossível em que uma mulher de trinta e nove anos infeliz pensa quando pega o elevador do prédio em que vive com sua família.

O conto em primeira pessoa.

Um conto em que a mulher de trinta e nove anos é na verdade uma mulher não muito infeliz assim que escreve um conto sobre ser uma mulher infeliz.

O conto do dia em que estive num carro. Que bateu em um poste.

Um conto sobre a mulher de trinta e nove anos que espera encontrar em uma tarde qualquer o cara com quem saiu uma vez aos dezoito anos na pista rolante da transição entre a linha verde e a linha amarela do metrô de São Paulo.

O conto que não é literatura. O conto com sirenes.

Um conto sobre a mulher de trinta e nove anos que acha o cara com quem ela saiu aos dezoito parecido com o Damon Albarn.

O conto do dia em que eu tinha morrido.

Um conto sobre a mulher de trinta e nove anos que não queria ter tido aquele filho, nem aquele marido. Que queria um nome, não ter sido a mulher de trinta e nove anos que não envelhece em um conto.

O conto do dia em que a culpa era minha porque eu não tinha morrido. Nem quebrado a coluna. Nem rasgado a metade do rosto.

Um conto sobre a mulher de trinta e nove anos que assiste a uns vídeos pornográficos várias vezes para sentir tanta culpa e vergonha que justifique sua indisposição para trepar com qualquer um, até com aquele cara com quem ela saiu aos dezoito, se ele aparecesse.

O conto em que sinto culpa.

Um conto em que descrevo cada cena de sexo que a mulher de trinta e nove anos assiste, por exemplo: eles estão num lugar aberto, a garota ainda está com as botas.

O conto em que explico como me sinto depois que faço qualquer coisa que não devia fazer porque o espírito santo morou em mim e eu não devia porque fui e eu não devia porque sou uma menina e menina não se eu não tivesse enchido a cara nada disso estava acontecendo agora, Ele disse.

Um conto.

Que é um poema.

(e uma catarse, que não é literatura e não interessa a mais ninguém, mas que é um conto do século 21 e no século 21 os silêncios são públicos, como a solidão, a mesma daquela mulher de trinta e nove anos que não sou eu e por isso pôde ser exposta neste conto, que é um poema).

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