amadores

Ontem foi a primeira vez que entrei naquele site de vídeos pornográficos porque não conseguia dormir pensando em você. Não foi a primeira vez que eu procurei por um filme pornográfico. Foi a primeira vez que eu entrei naquele site pensando em você. O casal trepava num acampamento, a mocinha ainda vestia as botas pesadas sobre uma toalha num gramado e o cara com quem ela transava, que parecia uns quinze anos mais velho que ela, dedicava-se arduamente em fazê-la, você sabe, “feliz”. Mas sem qualquer delicadeza, é claro. Ninguém quer delicadeza em um vídeo pornográfico. A etiqueta daquela seção dizia “amadores”, e eu acho bonito porque lembra amor mas também acho triste porque achei aquilo o contrário do amor, e tinha pelo menos duas câmeras ali. Já percebeu como esses caras que dirigem filmes pornográficos meio que querem mostrar quase que cientificamente a penetração? Às vezes eu gosto disso, quer dizer, ontem eu gostei um pouco até, mas em geral. A cena: o cara depilado, com um pau enorme, metia na garota de botas sobre uma toalha num gramado. Eu estava triste. Você não acha muito literário tudo isso, quer dizer, um corpo reagindo com uma coisa falsa dessas, quer dizer, indubitavelmente se trata de uma penetração real, eles fazem questão de provar: olha, isso é um pau real, duro de verdade, essa é uma boceta real, específica. É tudo de verdade. É tudo real. Mas não te parece literário isso de um corpo sentir uma coisa real a partir do que não existe? Eu não queria, ontem, quando entrei naquele site de vídeos pornográficos, você sabe, me excitar. Mas gozei sentada na cadeira. E não precisei tocar em nada, quero dizer, você entende, não entende, tem algumas coisas que podem acontecer com umas mulheres e talvez com alguns homens, um corpo real reagindo a um par de corpos falsos, quer dizer, eram corpos reais, hematomas reais, e ao mesmo tempo não era nada real e ainda por cima era um vídeo. E aquelas duas pessoas ali, naquele set tosco, é isso, entende, é isso que acho triste nisso tudo e é por isso que eu entrei eu acho naquele site ontem porque não conseguia dormir pensando em você queria ver tristeza mesmo. Mas essa tristeza meio que disfarçada. Você sabe, nunca gostei muito de vídeos pornográficos. E acho que nunca tive fantasias com isso, quer dizer, eu acho que nunca gostei de sexo para falar a verdade, não como em geral todas essas pessoas dizem gostar, quer dizer, continuaria a viver numa boa dormindo nessa cama de solteiro, mas ontem por algum motivo eu pensei muito em você e perdi o sono. E você acha que é o caso de falar com a M.? Você não acha estranho que sempre tem uma luz branca nos filmes pornográficos, uma luz dessas de supermercado, dessas de hospital, dessas de escritório? E que as mulheres depilam muito as sobrancelhas? Me incomodam aquelas sobrancelhas e também os hematomas nas pernas, nos quadris. Você viu aquele documentário das garotas que tomam antibióticos todos os dias porque trabalham nesses sites que fingem ser uma reunião de sex tapes caseiros? São tristes e doentes e machucadas essas garotas com sobrancelhas finas demais e tem os hematomas também, né?

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