cap. 3

3.

E no intervalo não houve silêncio. Teve os cacos do copo recolhidos com cuidado da pia, as meias dobradas na gaveta ao lado da prateleira das calças, a penteadeira entulhada de frascos e livros e xícaras vazias e uma violeta que há anos não floresce mas segue, suas folhas novinhas que virarão grandes folhas saudáveis espremidas em um vaso inadequado. Teve a primeira vez que ela desceu pelo corpo dele com a língua, a primeira vez que ela sem saber muito bem como fazer cobriu o pau dele com a boca, concentrando-se em fazê-lo feliz, em transformar em gozo todo o amor que ela sentia, que eles sentiam um pelo outro, todo o amor transformado não só nas mãos dadas, mas também nos movimentos do corpo, todo o corpo, a boca e os músculos do rosto, e também as mãos e as pontas dos dedos, e corpo todo sobre o corpo do outro preocupado em manter os movimentos que o fizessem gozar. Teve a vez que eles treparam no chuveiro bêbados depois de alguma festa de aniversário, teve a vez que ele levou uma caneca de café com leite para ela acordar, que espalhou pela casa os versos de uma canção que ela gostava muito numa manhã sem comemoração, teve a vez que ela comprou um bolo desses recheados com doce de leite e espalhou pela casa bandeirinhas do bob esponja compradas na loja de 1,99, teve a vez que ela teve certeza que já não gostava tanto dele assim quando aceitou tomar um café com aquele ex-colega de trabalho que já tinha beijado, teve a vez que ela chorou de frente ao espelho porque se sentiu sozinha num fim de semana que ele estava em casa.

Teve a vez que o sol entrou pela janela do quarto embaçada do frio de junho e o arzinho gelado da manhã esfriava as extremidades do corpo pesado de cobertores e de descanso, e lá da sala vinha uma música simples de acordes repetidos e da cozinha o cheiro da cafeteira se enchendo no fogão e lá fora o silêncio do domingo e ali dentro, do lado de dentro, uma certeza estranha, uma certeza talvez motivada pela manhã calma, sem sedução nem gozo, uma certeza de que aquilo só poderia ser, era felicidade.

[ouça]

[trecho de Anunciação, editora Oito e Meio, em cada vez mais breve]

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