créditos

Um dia eu fui para Buenos Aires e vi uma exposição linda de um cara que eu nunca tinha ouvido falar, mas passei em frente do museu e o cartaz me chamou atenção porque era uma mistura de literatura e artes plásticas e são duas coisas que eu amo, mas você não sabe disso, sabe, claro da literatura, mas isso das artes é mesmo uma coisa nova, eu sei, e tudo bem fazer essa cara de espanto, porque você não me conhecia de verdade e eu não era ainda esta que sou agora, mas dizia que então naquela tarde de muito calor entrei lá no MAMBA. O cara se chama Fabio Kacero. Uma das obras era uma instalação que imitava uma sala de cinema, quer dizer, era mesmo uma sala de cinema ali no meio do museu. E na parede estava sendo projetada uma lista infindável com os nomes das pessoas que de alguma maneira fizeram parte da vida dele, como os créditos, os créditos no final de um filme que a gente não quer que termine – já sentiu isso no cinema, a gente fica paralisada depois do The End? Todos os nomes de que ele se lembrava, e eu imagino que esse trabalho ele deve ir aumentando aos poucos, talvez todos os dias, e ele é um artista jovem ainda e fiquei pensando quanto tempo durará essa obra quando ele morrer? Porque a gente conhece gente todos os dias, né, e se esquece também. E para mim, que nunca estudei muitos anos no mesmo colégio, que me mudei muito de casa, que mudei de cidade algumas vezes, não mantive essa coisa dos amigos de muito antes, sabe, e talvez não só por isso, mas porque eu mesma tenho uma certa dificuldade em manter contato, agora ficou mais fácil, essa coisa da internet. Mas não ligo quase para ninguém. Então, essa obra me fez pensar umas coisas, por exemplo, em que lugar ali eu colocaria o teu nome? De que maneira ele seria destacado do resto porque é claro que não é justo que ele passasse em segundos diante dos olhos dos espectadores, não seria proporcional àqueles colegas cujos nomes como muito esforço me lembraria. Acho que ele se repetiria várias vezes, não em seguida, porque é que é claro que não penso em você assim todos os dias, mas pensei durante todos esses anos em dias esparsos, quando eu via uma árvore bonita, ou abria o livro certo, ou me lembrava da faculdade, então eu acho que seria assim, intercalado a todos aqueles que fizeram parte da minha vida estaria teu nome, e depois mais uma vez, e depois mais outra. Mas que loucura te encontrar aqui. Me diz, como anda tua vida?

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