[teste de elenco – narrador secundário]

Quando eu conheci o Marcos, digo, o seu Marcos, ele já estava numa dessas clínicas para depressivos numa pequena cidade a duzentos quilômetros de onde vivíamos na época e toda semana a gente arrumava uma cesta com algumas coisas gostosas, e umas revistas de mulher pelada, e também um maço de cigarros para levar pra ele. O lugar era controlado, mas não como uma penitenciária, então eu conseguia infiltrar sempre que possível uma garrafa pequena de vinho branco ou de conhaque às vezes de vodka, nos dias mais malucos. Nunca tive qualquer remorso desse tráfico, ele não tinha problemas com drogas, mas um dia riscou um fósforo sobre um travesseiro encharcado de álcool e quase começou um incêndio. Mas nessa época eu já não integrava aquela excursão. Esses ataques eram raros, na maior parte do tempo ele ficava em seu quarto deitado ou assistindo aos canais de venda da televisão e eu pensava Qual é o objetivo de prender uma pessoa num lugar horrível desses – quero dizer, era horrível porque era tudo perfeito e branco e limpo demais, mas não era como esses sanatórios cheios de gente gritando e batendo a cabeça na parede, era com um hospital decorado com madeira escura e flores e uns quadros de paisagem – mas eu dizia, se o objetivo era fazer uma pessoa continuar viva por que deixá-la morrendo aos poucos de tristeza e tédio? E então eu levava mesmo essas coisas perigosas como combustível e fogo porque eu sabia que a gente faria uma pequena farra embaixo de uma árvore qualquer, a bebida camuflada numa garrafa térmica de café e fumaríamos num canto escondido do quintal e teríamos uma linda tarde de domingo apesar da morte escondida em quase todos os silêncios e em todas as conversas fiadas que a gente tentava manter. Acho que ele gostava de mim na época, mesmo sem saber muito bem que tipo de relação eu tinha com o filho dele. Ele nunca perguntou nada, mas nos tratava como um casal, me tratava como sua nora, não aquela que lhe daria os netos, mas a namorada temporária da primeira juventude de seu filho. E eu gostava de ir também porque o Marcos, o meu Marcos, parava de conversar de repente, se levantava do nosso piquenique proibido e ia andar pelo quintal da clínica. E nessas horas eu ficava lá com o pai dele em silêncio, às vezes deitados lado a lado olhando o sol passar pelos galhos, os dois com uma expressão leve de quem descansa, de fim de semana no parque, e eu me esquecia que do lado de dentro daquele corpo relaxado e disponível para o mundo tinha alguém que não via sentido em mais nada. Éramos só dois membros de uma família temporária aproveitando um domingo de sol e silêncio embaixo de umas árvores que continuavam a se cobrir de verde indiferentes com a vida seca que preenchia a maior parte dos nossos dias.

E voltávamos em silêncio para casa. O Marcos chorava também pela culpa de sentir raiva daquele pai fraco. Eu chorava pelo seu pai, que não sabia quando viria de novo. E também por aquele amor que eu começava a sentir e não sabia o que fazer com ele.

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One thought on “[teste de elenco – narrador secundário]

  1. Oi! Acabei de ler Anunciação. Gostei muito! Você tem uma linguagem madura, densa, o que dá um suporte muito preciso ao enredo. Prende o leitor, atento à vertigem da personagem dentro do avião, entre idas e vindas da memória. Um romance muito reflexivo, que faz a gente pensar os limites da vida e nossas eternas expectativas. Parabéns!

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