sem-amor

[ou sobre voltar a estudar a si mesma: literatura]

d’une jouissance à en mourir, disent-elles, à en mourir de cette mort mystérieuse des amants sans amour.

Marguerite Duras

 

Quando eu voltar da tua casa todo meu corpo ele vai estar cansado de esperar por esse estremecimento o corpo cansado e talvez arrependido a culpa de um corpo que entendeu que amor é diferente de gozo o corpo que era de outro que se lembrava dias semanas antes meses durante era de outro corpo que este meu corpo se lembrava parado no tempo o outro corpo que eu era, que eu fui um dia quando pela primeira vez eu entreguei este, novo, que não era igual mas era ainda o mesmo o corpo em que ontem quando voltei da tua casa eu ainda carregava teu cansaço, teu sorriso e nossa falta de amor.  Não te amo. Nunca te prometi nada a não ser essa tarde ontem essa vontade de um corpo inventado – qual teu cheiro qual teu gosto? – Quando ontem voltei da tua casa aquilo era no peito um fosso, aquele era um corpo cansado, molhado de gozo, teu gosto, era um vazio. O amor eu soube que tinha acabado com outro corpo ainda dentro de mim, que não era o teu corpo inventado que eu me lembrava o teu corpo quando eu voltei da tua casa o vazio entre minhas pernas esse amor era outro o que acabou era outro. A morte. Que eu inventei e tinha acabado, uma saudade. Daquilo que eu era quando ainda não tinha sentido um amor acabar para sempre. Desse corpo. O fim. A morte. O gozo.

 

[publicado no jornal relevo, dez. 2015]

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