querido protagonista,

Eu ia começar te apresentando. Eu ia começar te dando um nome, eu te daria um corpo, uma profissão que ficasse bem na segunda linha do GC da entrevista que nunca dará. Eu ia começar por deixar sentado na cama porque desistiu, porque falhou, como a pistola engasgada, a pistola que não saberia descrever, como a pistola descarregada que por brincadeira apontou contra a garganta. Eu ia começar por te dar um corpo de que se livrasse como se ser livre fosse se livrar de um corpo, fosse o corpo a dificuldade fossem as pernas presas pesadas a carne flácida, como se livrar-se fosse este, o do corpo.

Eu ia, sem-nome, tirar suas palavras como tenho riscado as minhas próprias sentenças. Eu ia te atribuir uma sentença de morte: nas primeiras páginas do romance colocaria um revólver carregado ao lado de seu crânio, pesquisaria o caminho que uma bala faz através de uma barreira frágil, e te mataria, te se mataria no quarto do seu filho.

E o que aconteceria depois? Quem lavaria aqueles lençóis?

Eu quis te dar um corpo prisão porque suas grades não são perpétuas, porque é o metal que entra na carne e não o contrário.

Eu quis me matar. Mas desisti.

 

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