videotape

 

 

Na primeira gaveta ficam os passaportes das crianças

As chaves extras eu deixei dentro do cofre

Meus documentos, na pasta azul da escrivaninha

E eu já paguei a fatura da lavanderia

 

Tem uma pilha de roupas amassadas na mesa do canto

Tem uma pilha de sapatos na porta da sala

Nada disso é mais importante, meu amor,

Que deslacrar as janelas dos quartos

 

Os livros da estante foram mesmo quase todos lidos

(por favor, repare nos grifos)

 

Os eletrodomésticos ficarão todos programados

(para descongelar o almoço, aperte o botão do meio)

Separei numa caixa os mantimentos vencidos

E não se esqueça que quarta é o dia de descer com o lixo

 

Acho que deixei o guarda-chuva no carro

E meu casaco cinza, esvazie os bolsos, se livre dos cigarros

 

Daqui quarenta minutos peça ao porteiro que feche os registros

Do gás, que desligue a luz do prédio

E não entre em casa com nossos filhos

 

(por favor, queime os poemas, ou deixe-os comigo)

 

minério que dança [wip]

Debaixo da saia tem o corpo e dentro do corpo só tem osso

É minério como lápis, palavra, sismo

É o mais perto que da eternidade das rochas o corpo

É minério como as páginas de um livro

 

O osso é o corpo sem o que do corpo faz

Corpo e osso e fome e vestido

De corpo é como mostramos os ossos

O corpo é isso que rodeia os ossos

O corpo é isso que hoje não dançará

 

Debaixo do corpo tem os ossos vestidos de tempo

Debaixo do tempo as articulações das gavetas, arestas, buzinas,

De uma cidade sem silêncio e de pedras e fria

De uma cidade que é minha ainda

 

Ossos são rochas fracas que se partem com o tempo

O tempo é isso que desmancha as pedras

O tempo é isso que desfaz o abraço

O tempo reparte uns corpos,

 

Na queda uns ossos, as descosturas de uns livros

Vale-abismo entre os picos de um eletrocardiograma

A quietude dos terremotos, o silêncio sísmico

É o osso do tempo que dança comigo

 

[sob ana c.]

Aqui, na espera do retorno

Do inverno, do céu claro, de Saturno e de você

Te odeio e te amo com o corpo inteiro

 

Aqui, bonita demais para esta tarde de dezembro

Deslizo por uma Copacabana que se dissolve

Aos meus pés

Não é lá onde você está.

 

Nunca jamais este agora, ela disse

E eu, em vez de ouvir as cigarras

E o ruído fresco dos ventiladores do teto

Sonho com o barulho do  mar do outro lado do mundo

Com o rosto encontrando o vento gelado de umas montanhas

Com o brilho dos olhos dos leopardos e de todos os outros bichos que não encontro nas florestas daqui.

 

Noite passada caminhei sozinha pelos Himalaias.

Sonhei com aquele verso inteiro do Drummond.

Diário do frio #3

Sem que eu quisesse, minha mãe percebeu no telefone que não estava muito bem noite passada, que me sentia sozinha, uma casa vazia e silenciosa ainda não muito confortável. Hoje pela manhã meu pai me trouxe lá do litoral, sem me avisar, uma televisão pequena, colorida. Disse que seria uma companhia à noite.

Diário do frio #2

Porque a gente nunca prevê o espaço que as coisas deixam de ocupar. E chega a noite em que sob o céu da cidade antiga nos damos conta do desperdício de uma gaveta vazia, dos cantos empoeirados de uma casa sem o cheiro da gente, do avesso de um vestido sem festa, das dobras de um corpo não familiar, do amor.

 

diário do frio #1

Sinto dificuldade em trabalhar, as mãos ficam menos ágeis e tenho mais sono que o normal. Lembrar de comprar uma chaleira que faça barulho e evitar um incêndio (esqueci mais uma vez a água fervendo no fogão). Sonhei que atirava um brinquedo a um cão perigoso, que me devolvia para recomeçar o ciclo, mas eu tinha medo de pegá-lo de sua boca. Se pudesse, continuaria na cama o resto do dia. O cão era dócil, era minha única companhia.