[sob ana c.]

Aqui, na espera do retorno

Do inverno, do céu claro, de Saturno e de você

Te odeio e te amo com o corpo inteiro

 

Aqui, bonita demais para esta tarde de dezembro

Deslizo por uma Copacabana que se dissolve

Aos meus pés

Não é lá onde você está.

 

Nunca jamais este agora, ela disse

E eu, em vez de ouvir as cigarras

E o ruído fresco dos ventiladores do teto

Sonho com o barulho do  mar do outro lado do mundo

Com o rosto encontrando o vento gelado de umas montanhas

Com o brilho dos olhos dos leopardos e de todos os outros bichos que não encontro nas florestas daqui.

 

Noite passada caminhei sozinha pelos Himalaias.

Sonhei com aquele verso inteiro do Drummond.

Diário do frio #3

Sem que eu quisesse, minha mãe percebeu no telefone que não estava muito bem noite passada, que me sentia sozinha, uma casa vazia e silenciosa ainda não muito confortável. Hoje pela manhã meu pai me trouxe lá do litoral, sem me avisar, uma televisão pequena, colorida. Disse que seria uma companhia à noite.

Diário do frio #2

Porque a gente nunca prevê o espaço que as coisas deixam de ocupar. E chega a noite em que sob o céu da cidade antiga nos damos conta do desperdício de uma gaveta vazia, dos cantos empoeirados de uma casa sem o cheiro da gente, do avesso de um vestido sem festa, das dobras de um corpo não familiar, do amor.

 

diário do frio #1

Sinto dificuldade em trabalhar, as mãos ficam menos ágeis e tenho mais sono que o normal. Lembrar de comprar uma chaleira que faça barulho e evitar um incêndio (esqueci mais uma vez a água fervendo no fogão). Sonhei que atirava um brinquedo a um cão perigoso, que me devolvia para recomeçar o ciclo, mas eu tinha medo de pegá-lo de sua boca. Se pudesse, continuaria na cama o resto do dia. O cão era dócil, era minha única companhia.

hoje, depois das sete

Hoje depois das sete eu quis fazer um poema que falasse do corpo da gente um poema que eu leria em voz alta gravando uma mensagem enquanto percorreria as pequenas ruas vazias e frias dessa minha cidade onde agora é verão e que eu.
Um poema que falasse tudo o que a gente não consegue dizer, que a gente não consegue dizer mais que a gente ainda não.
Um poema feito do sangue sem violência, dos músculos, dos ossos articulados, do movimento dos braços, dos quadris, da pele que esconde os nervos, os vazios por onde passa a memória, as noites tristes e também esse tipo especial de não amor.
Hoje depois das sete eu quis escrever uma carta, um roteiro, os passos de uma viagem, um cronograma do futuro.
Hoje depois das sete eu quis dizer que o amor comeu meu endereço, meus cartões de visitas, todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O meu medo e também minha vontade da morte.