sol em libra

aprendi que uma gaveta para as camisetas faz toda a diferença

que prédios velhos não sustentam banhos muito quentes

mas que cidades frias são mais suportáveis quando o  banho é quente

que aqui venta ainda muito no primeiro dia de primavera, um vento polar de fim de mundo

que é preciso fechar as janelas

e abri-las de quando em quando

que não tem uma hora que o amor termina. tem um adeus meio sem jeito que fica torto até o primeiro oi sem intimidade

que não tem uma hora que o amor começa. tem um oi meio sem jeito que fica mudo porque não precisa falar mais nada

que existe um corpo, o mesmo, e existe os outros

que se olhar bem tem um mestre em cada canto

como você. que todo dia me ensina isso de andar para frente.

 

querido protagonista,

Eu ia começar te apresentando. Eu ia começar te dando um nome, eu te daria um corpo, uma profissão que ficasse bem na segunda linha do GC da entrevista que nunca dará. Eu ia começar por deixar sentado na cama porque desistiu, porque falhou, como a pistola engasgada, a pistola que não saberia descrever, como a pistola descarregada que por brincadeira apontou contra a garganta. Eu ia começar por te dar um corpo de que se livrasse como se ser livre fosse se livrar de um corpo, fosse o corpo a dificuldade fossem as pernas presas pesadas a carne flácida, como se livrar-se fosse este, o do corpo.

Eu ia, sem-nome, tirar suas palavras como tenho riscado as minhas próprias sentenças. Eu ia te atribuir uma sentença de morte: nas primeiras páginas do romance colocaria um revólver carregado ao lado de seu crânio, pesquisaria o caminho que uma bala faz através de uma barreira frágil, e te mataria, te se mataria no quarto do seu filho.

E o que aconteceria depois? Quem lavaria aqueles lençóis?

Eu quis te dar um corpo prisão porque suas grades não são perpétuas, porque é o metal que entra na carne e não o contrário.

Eu quis me matar. Mas desisti.

 

sem-amor

[ou sobre voltar a estudar a si mesma: literatura]

d’une jouissance à en mourir, disent-elles, à en mourir de cette mort mystérieuse des amants sans amour.

Marguerite Duras

 

Quando eu voltar da tua casa todo meu corpo ele vai estar cansado de esperar por esse estremecimento o corpo cansado e talvez arrependido a culpa de um corpo que entendeu que amor é diferente de gozo o corpo que era de outro que se lembrava dias semanas antes meses durante era de outro corpo que este meu corpo se lembrava parado no tempo o outro corpo que eu era, que eu fui um dia quando pela primeira vez eu entreguei este, novo, que não era igual mas era ainda o mesmo o corpo em que ontem quando voltei da tua casa eu ainda carregava teu cansaço, teu sorriso e nossa falta de amor.  Não te amo. Nunca te prometi nada a não ser essa tarde ontem essa vontade de um corpo inventado – qual teu cheiro qual teu gosto? – Quando ontem voltei da tua casa aquilo era no peito um fosso, aquele era um corpo cansado, molhado de gozo, teu gosto, era um vazio. O amor eu soube que tinha acabado com outro corpo ainda dentro de mim, que não era o teu corpo inventado que eu me lembrava o teu corpo quando eu voltei da tua casa o vazio entre minhas pernas esse amor era outro o que acabou era outro. A morte. Que eu inventei e tinha acabado, uma saudade. Daquilo que eu era quando ainda não tinha sentido um amor acabar para sempre. Desse corpo. O fim. A morte. O gozo.

 

[publicado no jornal relevo, dez. 2015]

______________

Dar forma ao vazio

(um bordado de cores vivas sobre o peito cinza), uma régua que trace as linhas perfeitas e meça simultâneo o tempo entre o aperto de um nó e o alívio de uma costura desfeita.

Da forma quase vazia

de uma linha (lacuna) se transforma tudo isso que não coube nos detalhes dos punhos dos vestidos dos lenços de verão e luto.

 

 

o que acontece com ela?

francesca-woodman-untitled-providence-rhode-island-1976

Francesca Woodman

Louise Bourgeois

Maria Martins

Hilda Hilst

Sylvia Plath

A senhora do 906 que também mora sozinha

Minha mãe

Minha vó

A mãe de santo do enfermeiro do primeiro dia

Virginia Woolf

Ms. Dalloway

Ana C.

Aquela mulher de vestido sobre o carro de luxo dos anos 50 na foto do jornal

A senhora que me vendeu flores ontem à tarde

Todas as personagens do Hopper

Clarice Lispector

Laura Brown

Marilyn Moroe

Todas as mulheres que já olharam com medo para as cortinas e o vento

Todas as mulheres que já sentiram o vento transpassar o corpo invisível

Todas as mulheres que não conseguem dizer que está cansada.

Vanessa C. Rodrigues. Que não consegue dizer.

E está cansada.

videotape

 

Na primeira gaveta ficam os passaportes das crianças

As chaves extras eu deixei dentro do cofre

Meus documentos, na pasta azul da escrivaninha

E eu já paguei a fatura da lavanderia

 

Tem uma pilha de roupas amassadas na mesa do canto

Tem uma pilha de sapatos na porta da sala

Nada disso é mais importante, meu amor,

Que deslacrar as janelas dos quartos

 

Os livros da estante foram mesmo quase todos lidos

(por favor, repare nos grifos)

 

Os eletrodomésticos ficarão todos programados

(para descongelar o almoço, aperte o botão do meio)

Separei numa caixa os mantimentos vencidos

E não se esqueça que quarta é o dia de descer com o lixo

 

Acho que deixei o guarda-chuva no carro

E meu casaco cinza, esvazie os bolsos, se livre dos cigarros

 

Daqui quarenta minutos peça ao porteiro que feche os registros

Do gás, que desligue a luz do prédio

E não entre em casa com nossos filhos

 

(por favor, queime os poemas, ou deixe-os comigo)

 

minério que dança [wip]

Debaixo da saia tem o corpo e dentro do corpo só tem osso

É minério como lápis, palavra, sismo

É o mais perto que da eternidade das rochas o corpo

É minério como as páginas de um livro

 

O osso é o corpo sem o que do corpo faz

Corpo e osso e fome e vestido

De corpo é como mostramos os ossos

O corpo é isso que rodeia os ossos

O corpo é isso que hoje não dançará

 

Debaixo do corpo tem os ossos vestidos de tempo

Debaixo do tempo as articulações das gavetas, arestas, buzinas,

De uma cidade sem silêncio e de pedras e fria

De uma cidade que é minha ainda

 

Ossos são rochas fracas que se partem com o tempo

O tempo é isso que desmancha as pedras

O tempo é isso que desfaz o abraço

O tempo reparte uns corpos,

 

Na queda uns ossos, as descosturas de uns livros

Vale-abismo entre os picos de um eletrocardiograma

A quietude dos terremotos, o silêncio sísmico

É o osso do tempo que dança comigo