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Dar forma ao vazio

(um bordado de cores vivas sobre o peito cinza), uma régua que trace as linhas perfeitas e meça simultâneo o tempo entre o aperto de um nó e o alívio de uma costura desfeita.

Da forma quase vazia

de uma linha (lacuna) se transforma tudo isso que não coube nos detalhes dos punhos dos vestidos dos lenços de verão e luto.

 

 

o que acontece com ela?

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Francesca Woodman

Louise Bourgeois

Maria Martins

Hilda Hilst

Sylvia Plath

A senhora do 906 que também mora sozinha

Minha mãe

Minha vó

A mãe de santo do enfermeiro do primeiro dia

Virginia Woolf

Ms. Dalloway

Ana C.

Aquela mulher de vestido sobre o carro de luxo dos anos 50 na foto do jornal

A senhora que me vendeu flores ontem à tarde

Todas as personagens do Hopper

Clarice Lispector

Laura Brown

Marilyn Moroe

Todas as mulheres que já olharam com medo para as cortinas e o vento

Todas as mulheres que já sentiram o vento transpassar o corpo invisível

Todas as mulheres que não conseguem dizer que está cansada.

Vanessa C. Rodrigues. Que não consegue dizer.

E está cansada.

videotape

 

Na primeira gaveta ficam os passaportes das crianças

As chaves extras eu deixei dentro do cofre

Meus documentos, na pasta azul da escrivaninha

E eu já paguei a fatura da lavanderia

 

Tem uma pilha de roupas amassadas na mesa do canto

Tem uma pilha de sapatos na porta da sala

Nada disso é mais importante, meu amor,

Que deslacrar as janelas dos quartos

 

Os livros da estante foram mesmo quase todos lidos

(por favor, repare nos grifos)

 

Os eletrodomésticos ficarão todos programados

(para descongelar o almoço, aperte o botão do meio)

Separei numa caixa os mantimentos vencidos

E não se esqueça que quarta é o dia de descer com o lixo

 

Acho que deixei o guarda-chuva no carro

E meu casaco cinza, esvazie os bolsos, se livre dos cigarros

 

Daqui quarenta minutos peça ao porteiro que feche os registros

Do gás, que desligue a luz do prédio

E não entre em casa com nossos filhos

 

(por favor, queime os poemas, ou deixe-os comigo)

 

minério que dança [wip]

Debaixo da saia tem o corpo e dentro do corpo só tem osso

É minério como lápis, palavra, sismo

É o mais perto que da eternidade das rochas o corpo

É minério como as páginas de um livro

 

O osso é o corpo sem o que do corpo faz

Corpo e osso e fome e vestido

De corpo é como mostramos os ossos

O corpo é isso que rodeia os ossos

O corpo é isso que hoje não dançará

 

Debaixo do corpo tem os ossos vestidos de tempo

Debaixo do tempo as articulações das gavetas, arestas, buzinas,

De uma cidade sem silêncio e de pedras e fria

De uma cidade que é minha ainda

 

Ossos são rochas fracas que se partem com o tempo

O tempo é isso que desmancha as pedras

O tempo é isso que desfaz o abraço

O tempo reparte uns corpos,

 

Na queda uns ossos, as descosturas de uns livros

Vale-abismo entre os picos de um eletrocardiograma

A quietude dos terremotos, o silêncio sísmico

É o osso do tempo que dança comigo

 

[sob ana c.]

Aqui, na espera do retorno

Do inverno, do céu claro, de Saturno e de você

Te odeio e te amo com o corpo inteiro

 

Aqui, bonita demais para esta tarde de dezembro

Deslizo por uma Copacabana que se dissolve

Aos meus pés

Não é lá onde você está.

 

Nunca jamais este agora, ela disse

E eu, em vez de ouvir as cigarras

E o ruído fresco dos ventiladores do teto

Sonho com o barulho do  mar do outro lado do mundo

Com o rosto encontrando o vento gelado de umas montanhas

Com o brilho dos olhos dos leopardos e de todos os outros bichos que não encontro nas florestas daqui.

 

Noite passada caminhei sozinha pelos Himalaias.

Sonhei com aquele verso inteiro do Drummond.

Diário do frio #3

Sem que eu quisesse, minha mãe percebeu no telefone que não estava muito bem noite passada, que me sentia sozinha, uma casa vazia e silenciosa ainda não muito confortável. Hoje pela manhã meu pai me trouxe lá do litoral, sem me avisar, uma televisão pequena, colorida. Disse que seria uma companhia à noite.