concha

A casa toda aparentando a tua saúde, e você ainda se espanta com os moluscos, bicho?

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Não somos mais a mesma, sabe? Eu daqui do futuro, ouça bem, ouça bem que é bom que você se prepare, eu aqui do futuro não sei lidar muito bem com algumas coisas, por exemplo com o frio. Mas você vai ter uma casa só sua, um apartamento ok bem perto daquele prédio que um dia significou fazer a faculdade, do café que ainda serve o capuccino com nutella, e dos teatros e fica a uma quadra do cursinho que agora é o detran mas que quando era cursinho foi ali que você meio que começou a fumar com a desculpa de ter algo só seu e agora, voilà,  você tem. Além do vício da nicotina, você tem umas cadeiras bonitas. Ah, você também vai se aproximar da sua mãe, não grile muito. Serão alguns anos de análise, é verdade, mas o que importou mesmo nisso foi aquela temporada no hospital. Não, não foi outro acidente.

Veja todos os filmes que puder, compre um monte de livros (carimbo é uma boa ideia), faça tudo o que conseguir nessa Babilônia. Você não vai ficar aí para sempre. Aqui no futuro as livrarias são menos empolgantes.

Eu não estou muito longe de você. Temos mais o menos o mesmo peso, a mesma cor de cabelo, mas nunca mais ouvi as mesmas músicas, e nem sei se cheguei a terminar mais do que uns pares de livros desde que desembarquei. Não sei muito das notícias. Basicamente, não somos mais a mesma porque eu meio que estou um pouco para trás. Mas é que você também tem uma condiçãozinha aí, preste atenção, dizem que tem qualquer coisa no seu humor oscilante que você precisa organizar. Você não vai. Lembra quando você tinha medo de no futuro se tornar uma pessoa frustrada?

 

 

sol em libra

aprendi que uma gaveta para as camisetas faz toda a diferença

que prédios velhos não sustentam banhos muito quentes

mas que cidades frias são mais suportáveis quando o  banho é quente

que aqui venta ainda muito no primeiro dia de primavera, um vento polar de fim de mundo

que é preciso fechar as janelas

e abri-las de quando em quando

que não tem uma hora que o amor termina. tem um adeus meio sem jeito que fica torto até o primeiro oi sem intimidade

que não tem uma hora que o amor começa. tem um oi meio sem jeito que fica mudo porque não precisa falar mais nada

que existe um corpo, o mesmo, e existe os outros

que se olhar bem tem um mestre em cada canto

como você. que todo dia me ensina isso de andar para frente.

 

querido protagonista,

Eu ia começar te apresentando. Eu ia começar te dando um nome, eu te daria um corpo, uma profissão que ficasse bem na segunda linha do GC da entrevista que nunca dará. Eu ia começar por deixar sentado na cama porque desistiu, porque falhou, como a pistola engasgada, a pistola que não saberia descrever, como a pistola descarregada que por brincadeira apontou contra a garganta. Eu ia começar por te dar um corpo de que se livrasse como se ser livre fosse se livrar de um corpo, fosse o corpo a dificuldade fossem as pernas presas pesadas a carne flácida, como se livrar-se fosse este, o do corpo.

Eu ia, sem-nome, tirar suas palavras como tenho riscado as minhas próprias sentenças. Eu ia te atribuir uma sentença de morte: nas primeiras páginas do romance colocaria um revólver carregado ao lado de seu crânio, pesquisaria o caminho que uma bala faz através de uma barreira frágil, e te mataria, te se mataria no quarto do seu filho.

E o que aconteceria depois? Quem lavaria aqueles lençóis?

Eu quis te dar um corpo prisão porque suas grades não são perpétuas, porque é o metal que entra na carne e não o contrário.

Eu quis me matar. Mas desisti.

 

sem-amor

[ou sobre voltar a estudar a si mesma: literatura]

d’une jouissance à en mourir, disent-elles, à en mourir de cette mort mystérieuse des amants sans amour.

Marguerite Duras

 

Quando eu voltar da tua casa todo meu corpo ele vai estar cansado de esperar por esse estremecimento o corpo cansado e talvez arrependido a culpa de um corpo que entendeu que amor é diferente de gozo o corpo que era de outro que se lembrava dias semanas antes meses durante era de outro corpo que este meu corpo se lembrava parado no tempo o outro corpo que eu era, que eu fui um dia quando pela primeira vez eu entreguei este, novo, que não era igual mas era ainda o mesmo o corpo em que ontem quando voltei da tua casa eu ainda carregava teu cansaço, teu sorriso e nossa falta de amor.  Não te amo. Nunca te prometi nada a não ser essa tarde ontem essa vontade de um corpo inventado – qual teu cheiro qual teu gosto? – Quando ontem voltei da tua casa aquilo era no peito um fosso, aquele era um corpo cansado, molhado de gozo, teu gosto, era um vazio. O amor eu soube que tinha acabado com outro corpo ainda dentro de mim, que não era o teu corpo inventado que eu me lembrava o teu corpo quando eu voltei da tua casa o vazio entre minhas pernas esse amor era outro o que acabou era outro. A morte. Que eu inventei e tinha acabado, uma saudade. Daquilo que eu era quando ainda não tinha sentido um amor acabar para sempre. Desse corpo. O fim. A morte. O gozo.

 

[publicado no jornal relevo, dez. 2015]

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Dar forma ao vazio

(um bordado de cores vivas sobre o peito cinza), uma régua que trace as linhas perfeitas e meça simultâneo o tempo entre o aperto de um nó e o alívio de uma costura desfeita.

Da forma quase vazia

de uma linha (lacuna) se transforma tudo isso que não coube nos detalhes dos punhos dos vestidos dos lenços de verão e luto.

 

 

o que acontece com ela?

francesca-woodman-untitled-providence-rhode-island-1976

Francesca Woodman

Louise Bourgeois

Maria Martins

Hilda Hilst

Sylvia Plath

A senhora do 906 que também mora sozinha

Minha mãe

Minha vó

A mãe de santo do enfermeiro do primeiro dia

Virginia Woolf

Ms. Dalloway

Ana C.

Aquela mulher de vestido sobre o carro de luxo dos anos 50 na foto do jornal

A senhora que me vendeu flores ontem à tarde

Todas as personagens do Hopper

Clarice Lispector

Laura Brown

Marilyn Moroe

Todas as mulheres que já olharam com medo para as cortinas e o vento

Todas as mulheres que já sentiram o vento transpassar o corpo invisível

Todas as mulheres que não conseguem dizer que está cansada.

Vanessa C. Rodrigues. Que não consegue dizer.

E está cansada.